terça-feira, 28 de julho de 2009

Incêndio na casa assombrada

Jamais pensei estar neste local. Na cozinha desta casa a que todos chamam de casa assombrada. Estou a sangrar da barriga. Enquanto perco as forças para me levantar, as chamas rodeiam-me e o tecto está a cair aos pedaços.

Pego no telemóvel para pedir ajuda mas não tenho rede, sinto-me a sufocar como se alguém estivesse a apertar-me o pescoço. Tento arrastar-me até ao cano de ar para poder respirar, mas quando a brisa de ar me entra pela boca sinto um ardor como se estivesse a beber veneno.

Rastejo pelo chão, que outrora estava coberto com mosaicos triangulares pretos e rosa, tentando encontrar rede.

Sinto-me encurralada, com as chamas a consumirem-me por dentro.

Solto um gemido quando a estátua do antigo dono da casa, cai sobre as minhas pernas. Este objecto contundente provoca-me dores insuportáveis, contorço-me e esfrego a perna na esperança de suavizar, mas piora. Deixo de sentir as pernas e de ter poder sobre elas.

E assim me encontro eu no meio da cozinha impossibilitada de me mexer, só os braços sobram, as minhas mãos estão ensanguentadas e cheias de cacos, mas a dor na barriga é tão forte, que nem dou pelo resto.

Vejo as chamas aproximarem-se de mim, sinto-me atordoada e desmaio por uns instantes.


E agora estou aqui, deitada numa cama de ferro. Olho à minha volta e vejo as paredes brancas, ficarem pretas, uma estante cheia de livros antigos e fotografias a preto e branco, tudo empoeirado. Sentado ao meu lado está o Diego a olhar para mim preocupado.

- Como te sentes Eva? – Pergunta ele ofegante. – Estás a perder muito sangue, tenho de te tirar daqui rapidamente.

- Dói-me o corpo todo, sinto-me fraca. – Disse que com a voz rouca e cansada – como é que isto aconteceu? Porque ainda estamos aqui? O que fazemos?c

Olhei para ele com os olhos semi-abertos, passei-lhe a mão pela sua cara quente e arrepiei-me.

- O que foi? Arrepiaste-te. Porquê? – Perguntou ele exaltado, como se a preocupação o consumisse.

- A tua pele está a escaldar, estás doente? - Pergunto eu como se não soubesse que a anormalidade era da minha parte.

- Ahah Eva, tu é que perdeste muito sangue, tive de atar o meu casaco em ti para estancá-lo, mas tens de ir mesmo ao hospital – Explicou-me ele com a sua voz doce, enquanto me passava a mão pela nuca e beijava-me a testa.

- Então vamos sair daqui, ajuda-me só a levantar – pedi ao abraçar-lhe o pescoço para me agarrar.

- Não Eva, não podemos, ainda há chamas lá fora, a casa está a cair toda, só aqui estamos em segurança até aos bombeiros chegarem.

- Mas amor sinto-me fraca e não sei quanto tempo mais eu aguento – Disse-lhe tão baixinho que ele teve de encostar o ouvido a minha boca para conseguir ouvir.

Voltei a olhá-lo com muito custo, as minhas pálpebras estavam pesadas, mal as consegui abrir. Ele estava deslumbrante, com um sorriso na cara como se estivesse a admirar a beleza de uma pedra preciosa. Os seus olhos azuis brilhavam, e formavam-se as covinhas que eu tanto gosto de ver nele.

- Chamaste-me amor, mesmo sabendo que eu namoro com a tua melhor amiga – interrompeu-me os pensamentos para me chamar à realidade.

- Desculpa Diego, sei que não devia mas eu amo-te e sempre te amarei. Só não quero trair a minha amiga de novo, prefiro que fiques com ela.

A sua cara ficou séria, ele não sabe o que quer, está indeciso entre mim e a Lily. Ambas gostamos dele mas eu não o tenho nem o posso ter. O desejo de o beijar é enorme, poderá ser o ultima beijo, a despedida.

- Mike, se eu dissesse que te amo mais que tudo e te pedisse um beijo de despedida, tu retribuías? – Perguntei eu olhando-o nos olhos esperando uma resposta positiva.

- Não Eva. – Respondeu ele, com convicção. Senti-me perdida, não esperava esta resposta deles começaram-me a cair as primeiras lágrimas. – Eu não te dou um beijo de despedida, eu dou-te um beijo que simboliza a nossa amizade especial.

E no mesmo momento inclina-se sobre mim, passa a mão pelo meu rosto e beija-me. Sinto um calafrio quando os lábios se tocam, uma sensação que me acalma todas as feridas. As nossas línguas misturam-se como numa dança suave. A mão dele desce até aos meus seios, até passar pela barriga…

- Ouch! Diego, pára por favor! Estás a enterrar mais o ferro que tenho espetado na barriga – Grito com dores, como se ele me apunhalasse ainda mais. – Não consigo respirar… Ajuda-me a sair daqui, tenho muito medo.

Ele levantou-se, pegou no telemóvel e instantes depois mandou-o contra a parede, partindo-o em pedaços.

- Fogo Eva, não há rede. Os bombeiros disseram que já vinham a caminho e estão a demorar. Desculpa querida por não conseguir fazer melhor, estamos rodeados de chamas, fechados nesta sala que me parece segura. – Ele andava de um lado para o outro até que se ajoelhou ao meu lado, deu-me a mão e beijou-a. – Aguenta, por favor! Não me deixes.

- Não te vou deixar eu sou forte, deita-te ao meu lado e descansa até aos bombeiros chegarem. – Ele deitou-se ao meu lado, colocando o braço por cima de mim e encostando a cara aos meus cabelos.


Começo a ouvir as sirenes dos carros dos bombeiros a chegar, tento mexer-me mas estou paralisada. Parece que estes últimos minutos demoraram a passar mais que o resto do tempo.

- Eva, chegaram. É a nossa salvação, estaremos livres em breve. – A voz dele começa a sumir como se ele baixasse o volume. – Não Eva! Por favor, aguenta mais um pouco! Eu amo-te muito! Está quase amor, sairemos bem disto tudo. Não vás querida. Não!

Joazita '

1 comentário:

Andreia Magalhães disse...

nao sabia que tinhas jeito para escrever ta bonita a historia