Jamais pensei estar neste local. Na cozinha desta casa a que todos chamam de casa assombrada. Estou a sangrar da barriga. Enquanto perco as forças para me levantar, as chamas rodeiam-me e o tecto está a cair aos pedaços.
Pego no telemóvel para pedir ajuda mas não tenho rede, sinto-me a sufocar como se alguém estivesse a apertar-me o pescoço. Tento arrastar-me até ao cano de ar para poder respirar, mas quando a brisa de ar me entra pela boca sinto um ardor como se estivesse a beber veneno.
Rastejo pelo chão, que outrora estava coberto com mosaicos triangulares pretos e rosa, tentando encontrar rede.
Sinto-me encurralada, com as chamas a consumirem-me por dentro.
Solto um gemido quando a estátua do antigo dono da casa, cai sobre as minhas pernas. Este objecto contundente provoca-me dores insuportáveis, contorço-me e esfrego a perna na esperança de suavizar, mas piora. Deixo de sentir as pernas e de ter poder sobre elas.
E assim me encontro eu no meio da cozinha impossibilitada de me mexer, só os braços sobram, as minhas mãos estão ensanguentadas e cheias de cacos, mas a dor na barriga é tão forte, que nem dou pelo resto.
Vejo as chamas aproximarem-se de mim, sinto-me atordoada e desmaio por uns instantes.
E agora estou aqui, deitada numa cama de ferro. Olho à minha volta e vejo as paredes brancas, ficarem pretas, uma estante cheia de livros antigos e fotografias a preto e branco, tudo empoeirado. Sentado ao meu lado está o Diego a olhar para mim preocupado.
- Como te sentes Eva? – Pergunta ele ofegante. – Estás a perder muito sangue, tenho de te tirar daqui rapidamente.
- Dói-me o corpo todo, sinto-me fraca. – Disse que com a voz rouca e cansada – como é que isto aconteceu? Porque ainda estamos aqui? O que fazemos?c
Olhei para ele com os olhos semi-abertos, passei-lhe a mão pela sua cara quente e arrepiei-me.
- O que foi? Arrepiaste-te. Porquê? – Perguntou ele exaltado, como se a preocupação o consumisse.
- A tua pele está a escaldar, estás doente? - Pergunto eu como se não soubesse que a anormalidade era da minha parte.
- Ahah Eva, tu é que perdeste muito sangue, tive de atar o meu casaco em ti para estancá-lo, mas tens de ir mesmo ao hospital – Explicou-me ele com a sua voz doce, enquanto me passava a mão pela nuca e beijava-me a testa.
- Então vamos sair daqui, ajuda-me só a levantar – pedi ao abraçar-lhe o pescoço para me agarrar.
- Não Eva, não podemos, ainda há chamas lá fora, a casa está a cair toda, só aqui estamos em segurança até aos bombeiros chegarem.
- Mas amor sinto-me fraca e não sei quanto tempo mais eu aguento – Disse-lhe tão baixinho que ele teve de encostar o ouvido a minha boca para conseguir ouvir.
Voltei a olhá-lo com muito custo, as minhas pálpebras estavam pesadas, mal as consegui abrir. Ele estava deslumbrante, com um sorriso na cara como se estivesse a admirar a beleza de uma pedra preciosa. Os seus olhos azuis brilhavam, e formavam-se as covinhas que eu tanto gosto de ver nele.
- Chamaste-me amor, mesmo sabendo que eu namoro com a tua melhor amiga – interrompeu-me os pensamentos para me chamar à realidade.
- Desculpa Diego, sei que não devia mas eu amo-te e sempre te amarei. Só não quero trair a minha amiga de novo, prefiro que fiques com ela.
A sua cara ficou séria, ele não sabe o que quer, está indeciso entre mim e a Lily. Ambas gostamos dele mas eu não o tenho nem o posso ter. O desejo de o beijar é enorme, poderá ser o ultima beijo, a despedida.
- Mike, se eu dissesse que te amo mais que tudo e te pedisse um beijo de despedida, tu retribuías? – Perguntei eu olhando-o nos olhos esperando uma resposta positiva.
- Não Eva. – Respondeu ele, com convicção. Senti-me perdida, não esperava esta resposta deles começaram-me a cair as primeiras lágrimas. – Eu não te dou um beijo de despedida, eu dou-te um beijo que simboliza a nossa amizade especial.
E no mesmo momento inclina-se sobre mim, passa a mão pelo meu rosto e beija-me. Sinto um calafrio quando os lábios se tocam, uma sensação que me acalma todas as feridas. As nossas línguas misturam-se como numa dança suave. A mão dele desce até aos meus seios, até passar pela barriga…
- Ouch! Diego, pára por favor! Estás a enterrar mais o ferro que tenho espetado na barriga – Grito com dores, como se ele me apunhalasse ainda mais. – Não consigo respirar… Ajuda-me a sair daqui, tenho muito medo.
Ele levantou-se, pegou no telemóvel e instantes depois mandou-o contra a parede, partindo-o em pedaços.
- Fogo Eva, não há rede. Os bombeiros disseram que já vinham a caminho e estão a demorar. Desculpa querida por não conseguir fazer melhor, estamos rodeados de chamas, fechados nesta sala que me parece segura. – Ele andava de um lado para o outro até que se ajoelhou ao meu lado, deu-me a mão e beijou-a. – Aguenta, por favor! Não me deixes.
- Não te vou deixar eu sou forte, deita-te ao meu lado e descansa até aos bombeiros chegarem. – Ele deitou-se ao meu lado, colocando o braço por cima de mim e encostando a cara aos meus cabelos.
Começo a ouvir as sirenes dos carros dos bombeiros a chegar, tento mexer-me mas estou paralisada. Parece que estes últimos minutos demoraram a passar mais que o resto do tempo.
- Eva, chegaram. É a nossa salvação, estaremos livres em breve. – A voz dele começa a sumir como se ele baixasse o volume. – Não Eva! Por favor, aguenta mais um pouco! Eu amo-te muito! Está quase amor, sairemos bem disto tudo. Não vás querida. Não!
Joazita '
1 comentário:
nao sabia que tinhas jeito para escrever ta bonita a historia
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